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Assistente editor: Hugo de Aguiar

deaguiar.hugo@gmail.com

A besta acordou o homem

PS: Os meus trabalhos tem as seguintes assinaturas: Fernando Oliveira, Antanho Esteve Calado, Ferool e Montefrio
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O homem levanta a mão prestes a abater-se sobre a mulher
Esta olha a mão pesada, nela nada sabe ler, suplica consenso
Será ferimento ou morte? O que o gesto vai trazer
A violência abate-se e a interrogação fica em suspenso.

Nenhum lamento sai da sua garganta, só um ríctus de tristeza e um esgar de estupor
E o sangue que brota da boca outrora bela e desejada
Os olhos tacanhos requerem uma pausa ao agressor
Mas o bruto repele o mendigar da sua amada.

A mulher sente um frio triste de criança, abandonada pela defesa
Num gesto natural anicha-se no chão na postura do embrião
Renuncia no canto, que pensa ser o seio matricial, aos trunfos que lhe deve a natureza
E abandona-se ao furor daquele que lhe ganhara o coração.

As mãos aproximam-se como tenazes, para extraírem do rosto os restos de vida
A mulher já não é, senão uma criatura regressiva
No olhar vazio de futuros, desfilam extractos dos tempos de ternura
Natureza morta, cobaia de artistas adormecidos, em tela caída
Braços dormentes, que cobrem ainda uma cabeleira expressiva
Boca despida de gritos, de lábios derribados pela tortura.

As pancadas caiem cadenciadas, o esposo é um animal feroz
Até que o cérebro da infeliz mais não possa resistir
A algazarra retira-se, poisa-se no silêncio dos rameiros
Uma música medonha sai das entranhas do algoz
As bestas agoiram nos restolhos, o tempo suspende o seu porvir
E as flores retraem-se medrosas, murcham-se nos canteiros.

O homem apagou a união sagrada, os estatutos sociais já não valem nada
Os contratos arderam na exaltação da animalidade ressurgida
Os sociólogos fazem resumos, os poetas fogem pela calada
E as seitas filosofadas fazem analises e fotografam a vida destruída.

O homem olha as mãos assassinas outrora ninhos de afago
Mãos que riscaram o amor num quadro desolado de agrura
De gestos irracionais que expungiram uma vida num trago
Que nasceram da razão e acabaram na loucura.

O homem não mais será bem-vindo à cidade da tolerância
Para seu castigo verá no fundo do seu poiso, estúpido e nauseabundo
O filme dum amor terno nascido em bela infância
Até que a misericórdia o retire deste mundo.

Antanho Esteve Calado

10 comentários:

Conceição Duarte disse...

Quanta poesia! Linda.
Um companheiro seu, foi me visitar. Obrigada, vou encontrá-lo para agradecer a visita em meu blog!

Para Antanho, meu abraço e minha admiração. Voltarei mais vezes.

CON

fernando oliveira disse...

Carissima, agradeço as tuas palavras de admiração, e a visita aos meus jornais, passarei brevemente para te comentar.

saudações

fernando

DOCETERE disse...

"No olhar vazio de futuros, desfilam extractos dos tempos de ternura...!!!

Poesia, magia, candura.

Com doce ternura

Tere

fernando oliveira disse...

Caríssima, o poema é um relato dum facto real, infelizmente o que diz o poema, aconteceu, aqui relato a morte duma estrela de cinema francesa faz uma dezena de anos, mas estes horrores acontecem todos os dias no mundo inteiro.

Obrigado pela leitura e comentário.

fernando

fernando oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LUZIMAR disse...

Bom dia Fernando cheguei aqui li e gostei muito.

Infelizmente essa é uma realidade que está acontecendo em todo o mundo, triste mas verdadeira.
Já se esquece o carinho, o amor e a amizade que foi causo de uma união.

Amei seu relato poetico.

Um grande Abraço.

António Manuel disse...

Fernando,

É um prazer tê-lo como seguidor de meu Blog,

Abraços,

Antonio Manuel

O CLARO disse...

Caro Fernando,

Tudo bem?

Teria imenso prazer em não gostar do que li e poder contestá-lo, desmentindo-o, publicamente.

Infelizmente não posso fazê-lo tamanha e cabal a verdade de sua poesia denunciando dores lancinantes.

Saudações fraternas, do BRasil,

Fernando, O Claro
http://oclaro.blogspot.com

fernando oliveira disse...

Caríssimo, leio entrelinhas. Não o teu embaraço, este episódio relatado aconteceu faz uma dezena de anos na europa num dos países mais pseudo- desenvolvidos, se ele concerne uma pessoa famosa, isso não préfigura que infelizmente aconteça todos os dias no mundo. Não sou um piegas pacifista, mas revolta-me que do homem se faça o que no reino animalesco não se faz, pois neste quase sempre as regras da natureza são resguardadas. Gostaria também que me contestasses, tanto na escrita como na história, esperemos não re mais destas coisas a contar.
meu caro, detentor duma conexão de caracol, não consigo de imediato ler o teu blog, passarei logo que dê fogo no cú deste malvado servidor.

abraço.

fernando

O CLARO disse...

Caro combatente de ideías e sentimentos, tudo bem?

Aqui no Brasil foi sancionada a famosa Lei Maria da Penha e com ela qualquer pessoa pode denunciar aquele que ousar "aproximar as mãos como tenzazes" contra as mulheres.
Esperamos que esta crueldade, muito comum no BRasil, baixe vertiginosamente.
O amigo não foi piegas, longe disso.
Lamento pelo trabalho que tens em acessar o blogue.
Em minha defesa consigno minha ignorância sobre coisas da Web.
Fique apaziguado e que Deus sempre o ilumine para escrever mais e melhor, como neste "post".
Saudações fraternas,
Fernando Claro